FEMINISMOZ

Ezra Chambal Nhampoca

Eu nasci há 42 anos na localidade de Lionde, distrito de Chókwe, Gaza e cresci numa aldeia da mesma localidade. Actualmente vivo em Maputo. Sou docente e pesquisadora na Universidade Eduardo Mondlane, Departamento de Línguas, Secção de Línguas Bantu, onde sou coordenadora do grupo de Estudos em Línguas, Linguística Bantu e Áreas Afins (GELLBAA). Sou mãe, cuidadora e educadora de três meninas. Sou criadora e presidente da Associação Sororidade Moçambique, uma associação recém-criada, que defende a formação, transformação das mulheres e a igualdades de direitos, oportunidades e dignidade e respeito pelas pessoas, sobretudo das mulheres.

Eu nasci na localidade de Lionde, distrito de Chókwe, província de Gaza, Moçambique e cresci numa aldeia da mesma localidade, de onde saí aos 11 anos para ir continuar com os estudos na cidade de Chókwe. Sou 1ª filha sobrevivente depois de os meus pais terem tido três nados mortos, o que fez com que a avó paterna me desse o nome de Mahlomulu, que significa, numa tradução conceptual: o que vem só para nos fazer sofrer, pois também vai morrer! Só que eu vinguei e sobrevivi. Para contrariar o significado do nome dado pela minha avó, o meu pai, Alberto Chambal, inspirando-se no livro bíblico de Ezra (em Changana e Esdras, em Português), deu-me o nome de Ezra. Este foi um profeta protegido por Deus e foi a forma de meu pai dizer que eu também seria protegida por Deus e viveria.

Sempre gostei de ir à escola, de ler e estudar. Contam-me que desde os 4 anos,eu fugia de casa para a escola, seguindo a tia Hortência, irmã mais nova do meu pai, por isso, quando ingressei na escola, na pré, apesar de a minha língua materna ser o Changana, já sabia ler as primeiras letras em Português e já sabia também ler em Changana, porque o meu pai ensinava-me a ler a bíblia em Changana, em casa. Em 1989, concluí a 5ª classe, na localidade de Lionde e como não havia 6ª classe, tive que continuar os estudos na cidade de Chókwe, onde fui morar com a minha tia, irmã mais velha de seu pai. Portanto, saí da casa e do aconchego dos pais aos 11 anos e nunca mais regressei lá, a não ser para visitá-los.

Em 1997, aos 19 anos, experimentei um momento muito difícil, com o falecimento da minha mãe, Amélia Cuinica. Senti-me muito desamparada e eu era a irmã mais velha. No mesmo ano, concluí o ensino secundário na escola secundária do Chókwe e mais uma vez, no Chókwe não havia como continuar, pois não havia nível médio. Rumei para a capital de Gaza, Xai-Xai, para a escola pré-universitária de Xai-Xai, vivi no Famoso Centro Internato de Matendene, onde fiz o nível médio. Matendene foi uma grande escola, escasseava quase tudo, em termos materiais, mas muitas e muitos de nós fomos lá lapidadas e lapidados para sermos o que somos hoje.

Quando concluí o nível médio, ainda não havia universidades em Gaza e parecia que a minha sina era mudar de lugar para lugar, atrás da escolarização. Em 2000, a cidade de Chókwe foi assolada pelas enchentes e refugíamo-nos na Macia. Dormíamos no quintal da Direcção distrital da educação, na altura. Algumas semanas depois, a partir da Macia consegui uma boleia para Maputo, onde, literalmente sozinha, e com poucos recursos, preparei-me para o exame de admissão à Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

Ainda no mesmo ano, consegui o primeiro emprego formal, uma vaga para dar aulas no ensino primário em Incomanine, Sábie, Moamba. Para chegar a Incomanine, saindo de Sábie, muitas vezes tínhamos que caminhar cerca de 7 km a pé, pois raramente aparecia por lá algum tipo de meio de transporte.

Em Incomanine, fiquei apenas um semestre, pois fui admitida na UEM para fazer o curso de Licenciatura em Linguística e Literatura. Esse foi um momento marcante, pois era a menina da aldeia a adentrar a Universidade. Eu estava muito feliz, apesar de saber que enfrentaria dificuldades financeiras para arcar com as despesas da universidade. Eu estava orgulhosa daquilo, meu pai também e ele dava de tudo para que eu seguisse com os estudos. Já naquela altura, eu sentia que eu estava em uma situação diferente da dos meus colegas da cidade. Eu não tinha muitos conhecimentos modernos, livros, roupas, etc. Mas tinha um foco: Fazer a universidade. Foi aí que conheci uma grande amiga, a Ernestina Salita Chirindja. Ela ajudou-me a abrir o meu primeiro e-mail, passei a ler os livros dela, líamos, debatíamos, estudávamos juntas e muitas vezes, para além dos livros, ela dividia o dinheiro dela de chapa comigo, quando não desse, íamos juntas a pé à universidade, a partir da Pandora, vindas dos bairros Bagamoio e 25 de Junho. Até hoje é uma grande irmã e madrinha das minhas filhas.

Outra boa alma que surgiu no meu caminho naquele momento, foi o Professor Bento Sitoe. Ele, percebendo a escassez de recursos da minha parte, passou a financiar as minhas cópias. Eu ia tirar cópias, registavam e, mensalmente, ele passava pela reprografia para pagar.

Portanto, fazer o curso de Linguística e Literatura na UEM não foi fácil, pelas difíceis condições económicas, contudo, aos poucos, fui superando. Fiz parte de um dos melhores grupos de estudo daquela turma de 2001, um grupo bem-sucedido; estudávamos muito. O nosso grupo era o “Irmãos de alma̎. Fizemos o curso com sucesso e em tempo útil. Para custear parte dos estudos, comecei a dar aulas de Português e História na Escola Primária Completa de Bagamoio. Com esse emprego, embora fosse difícil conciliar trabalho e estudos, a situação financeira melhorou e eu estava orgulhosa em poder pagar as minhas contas, kkkk.

Em Janeiro de 2005, em plena escrita dos dois trabalhos de fim de curso, um de Linguística e outro de Literatura, tive a minha primeira filha, Ndawina (que significa ganhei). Esse foi mais um momento marcante. No mesmo ano, terminei a licenciatura. Este também foi um momento bastante marcante, sobretudo a graduação, com aquela toga. Nunca ninguém da minha família directa tinha usado, formado-se em uma universidade. Eu era a primeira, por isso tive que fazer uma segunda festa de graduação lá na minha aldeia de origem.

Em 2006 ingressei na UEM como assistente estagiária. No mesmo ano, casei–me com Joaquim Nhampoca, meu companheiro da e na vida.

Em 2007, nasce a Maya Luna, minha segunda filha. Lembro-me que a Maya quase nascia na universidade, num seminário em Julho de 2007. O que valeu à bebé o nome de Seminarinha, nos primeiros dias de vida.

Em 2008, ingressei no Mestrado em Linguística, o qual terminei em tempo útil com uma defesa pública em 2010. Antes, Em 2009 recebi uma proposta do então chefe de secção de Línguas Bantu, David Langa, para integrar aquela secção. E no mesmo ano, beneficiei de uma bolsa para um estágio em Tervuren, Bélgica.

Em 2011, nasce a minha caçula, Dominique Joaquina.

Em 2014, mais uma vez, por motivos de formação, tive que mudar de lugar. Mudei-me para o Brasil e morei lá por quatro anos a realizar o Doutoramento. Levei as meninas para o Brasil, porque eu queria estar com elas, queria ver de perto, queria cuidar pessoalmente. Sou assim, minhas filhas, sobretudo agora que são menores, eu quero estar com elas. Eu passei por muita coisa, muita dor na vida, acho que isso tornou-me, não uma mãe híper-protectora, pois sempre faço questão de as ensinar a partir da minha experiência, mas sou uma mãe que quer estar com. Acho que é o desejo de que elas não passem pelo que eu passei.

Minha estadia no Brasil, na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, foi maravilhosa, marcada por uma forte presença, desde a organização de eventos e festas de Moçambique, mas também como palestrante e professora colaboradora de conteúdos africanos, na Universidade, no Município, no colégio e creche onde as minhas filhas estudavam. No Programa da minha formação, fui bem acolhida pelos professores e colegas. Fiz parcerias e amizades que serão para a vida toda. Mas no Brasil também passei por episódios de racismo e, entre lamentar e lutar contra, escolhi a segunda opção. E eu sabia que pelos padrões vigentes em nossas sociedades, para muitos, aquele não era o meu lugar: eu, uma mulher, mãe, negra, estrangeira ida de África e não dos EUA ou da Europa. Eu tinha consciência que ali seria discriminada por tudo isso. Mas entrei de cabeça erguida, andava pela universidade com as meninas e dava para ver as caras do tipo: o que você faz aqui?!! E, muitos nem imaginavam que eu fazia doutoramento ali.

Mas eu decidi enfrentar, superar e superei! Ensinei as minhas filhas a enfrentar o racismo e outras formas de discriminação, foi no Brasil que eu comecei a educá-las como crianças feministas. Hoje, elas são crianças feministas e, neste mundo patriarcal e machista, nada melhor que educar as nossas crianças como feministas, é a melhor preparação para a vida que lhes podemos dar, sejam meninas ou meninos.

Então, diante de uma discriminação eu reagia de imediato e dei muitas aulas formais e informais sobre conteúdos africanos, acima de tudo, fazia muito bem o que tinha ido fazer lá, fazia questão de fazer muito bem, para mostrar que uma mulher, mãe, negra, estrangeira e africana podia sim, fazer com sucesso um doutoramento, ter uma actividade académica e de activismo com sucesso. Terminei o doutoramento também em tempo útil, em Março de 2018.

Entre os grandes acontecimentos no Brasil, um dos mais importantes foi a homenagem pela Assembléia Legislativa de Santa Catarina, em 2017, por minha trajectória de luta em defesa da igualdade de direitos e contra todas as formas de discriminação e opressão.

Como mulher, são vários os momentos marcantes, alguns já indicados ao logo deste texto. Vou seleccionar alguns: um dos momentos mais impactantes foi quando me reconheci feminista, (porque ser feminista me valoriza quanto mulher; não preciso que alguém me diga que tenho valor, pois eu sei o meu valor e direitos). Não me lembro exactamente quando, mas quando isso aconteceu, eu identifiquei-me logo, porque fiz uma retrospectiva e vi que desde a infância, a minha trajectória, as minhas lutas tinham sido e são feministas. Tinham sido para mostrar que eu não sou inferior nem superior a um homem, por ser mulher – sempre acreditei que ser menina, mulher, nunca devia ser impedimento para realizar meus sonhos, sempre insisti em chegar onde a sociedade marcava como lugares impossíveis para as mulheres.

Os encontros do grupo Sororidade, agora associação, foram momentos marcantes, pois quando criei o Sororidade, o objectivo era ver a transformação das mulheres, que elas se enxergassem como sujeitas de suas vidas, que assumissem que elas têm um valor que vai muito além do papel servil a que o patriarcado as jogou e isso está a acontecer. Outro momento foi a homenagem no Brasil, nunca imaginei receber tamanha homenagem, tão nova e no estrangeiro. Impactou-me também a minha participação no 13º Congresso Mundos de Mulheres, em 2017, em Florianópolis. Foi um momento de encontros de mulheres de todo o mundo, de muita aprendizagem, sororidade e que mostrou que de facto, para tirar o mundo do buraco em que está, precisamos do feminismo, pois diferente do que dizem os detratores do feminismo, ele é de facto um pensamento, uma metodologia, uma teoria-acção que defende uma perspectiva igualitária entre as pessoas, em termos de direitos, oportunidades e dignidade, independentemente da raça, classe social, sexo. No dia que todos entendermos isso, o mundo será um lugar melhor.

Na verdade, na minha vida, foram muitas situações superadas. Quando se nasce numa “vilazinha” e se cresce numa aldeia e ainda por cima quando se é mulher e de repente você dá a volta ao mundo, adentra universidades nacionais e estrageiras e se faz um Doutoramento, é porque houve várias e duras etapas por superar, como por exemplo a discriminação de status, racial e de género. Onde as pessoas olham e pensam: por ser da aldeia, por ser mulher, por ser negra, você não vai conseguir! Eu já experimentei todas essas discriminações e superei, felizmente. Hoje enfrento essas discriminações com mais assertividade, argumentos e rebeldia, porque eu me preparo continuamente para enfrentar, leio e estudo sempre sobre. E quando você se prepara, em algum momento, a discriminação verga, é por isso que o feminismo não pode ser no vazio, só no blá-blá, há que ser sustentado com conhecimento e sabedoria.

Women’s Voice and Leadership ALIADAS ( WVL - ALIADAS)
Av. Julius Nyerere, N.º 258 Maputo, Moçambique      CP 4669

(+258) 21 48 75 52 (+258) 21 48 75 65

(+258) 84 51 08 505 (+258) 82 47 08 431

e-mail: info@aliadas.org


www.aliadas.org
EN
PT_MOZ EN